Quando surgiu a ideia do trabalho voluntário junto ao povo Pataxó, o Dr. Luiz Paulo me convidou para integrar a missão. Aceitei imediatamente. A proposta despertou em mim um antigo sonho, adormecido havia décadas.
Desde os tempos de faculdade eu alimentava o ideal de exercer uma medicina itinerante, próxima das pessoas mais esquecidas. Imaginava-me percorrendo aldeias indígenas, comunidades quilombolas, pequenas localidades rurais e lugares distantes dos grandes centros, levando atendimento médico a quem mais necessitasse. Era, talvez, um sonho juvenil de um médico nômade, movido muito mais pelo desejo de servir do que por qualquer outra ambição.
Por isso, a oportunidade de participar da missão na Aldeia Mãe Barra Velha representou muito mais do que uma viagem ou um trabalho voluntário. Foi uma experiência profundamente transformadora, tanto do ponto de vista humano quanto espiritual.
Naqueles dias, coincidentemente, completei 38 anos de formado. Não poderia imaginar cenário mais simbólico para celebrar essa trajetória. Em meio aos Pataxós, senti-me novamente próximo daquele jovem estudante que acreditava que a medicina poderia ser um instrumento de aproximação entre as pessoas, de acolhimento e de justiça social. Essa experiência levou-me a refletir sobre a prática médica contemporânea, frequentemente absorvida pela tecnologia, pela burocracia e pelos interesses econômicos, e sobre o quanto, muitas vezes, nos afastamos justamente das populações que mais precisam de cuidado.
José Pedro Ferreira de Bastos Vieira
Radioterapeuta/ Oncologista